quinta-feira, junho 17, 2004

Arquivos Secretos

Esse é do fundo do meu baú, escrito há muito tempo atrás, com uma leve editada

Cotidiano
Mesmo vagão, portas diferentes. Mesmo à distância seus olhares se atraíram e se cruzaram. Os lábios não resistiram e sorriram despreocupados, juvenis, um tanto acanhados.
Abaixaram o rosto, como se não soubessem serem donos do sorriso alheio. As mãos esquentaram com um suor frio, os corações aceleraram.
Sentaram-se em bancos opostos, de frente. Ele com o jornal do dia, ela com um Machado. Ninguém prestava atenção à leitura. Os olhos escapavam por cima do papel para o outro lado do vagão. Sempre furtivos, sempre fingindo nada querer, mas a tudo buscando. Quando se encontravam, encaravam-se por segundos e voltavam sua atenção à literatura, esperando o momento de novo encontro.
Chegou a estação dele. Hesitou por um momento, não queria descer. Sabia que nunca mais a veria, mas seguiu a vida conforme planejado.